Comissão do Mercosul discute soluções para empregar refugiados sírios e venezuelanos subutilizados

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Comissão do Mercosul discute soluções para empregar refugiados sírios e venezuelanos subutilizados

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Não bastasse o drama da guerra no caso da Síria e da crise econômica e política na Venezuela, que levaram boa parte de seus cidadãos a tentar recomeçar a vida em países como o Brasil, quando chegam aqui muitos deles – mesmo sendo altamente capacitados – não conseguem se estabelecer em suas áreas de atuação, por conta do idioma e da burocracia, e acabam sendo subutilizados. Este assunto foi discutido na manhã desta terça-feira (31) na reunião ordinária da Comissão do Mercosul e Assuntos Internacionais, presidida pela deputada Maria Victoria.

“Temos grandes médicos, arquitetos, engenheiros, alguns falando mais de quatro idiomas, mas que têm muita dificuldade de se encaixar em suas profissões. Um primo-irmão nosso, fluente em sete idiomas, estava trabalhando como empregado em um hotel. Isso é um crime”, comentou Nassib Abage, representante do Consulado da Síria no Paraná e em Santa Catarina.

A deputada Maria Victoria e Nassib Abage, representante do Consulado da Síria.

A deputada Maria Victoria e Nassib Abage, representante do Consulado da Síria.

Representante da comunidade venezuelana, João Guilherme de Mello Simão lembrou que o mesmo acontece com os migrantes do país vizinho, que já são a segunda maior comunidade de refugiados do país, com cerca de 19 mil pessoas. “Essas pessoas estão ficando à margem da sociedade”, afirmou.

Ele destacou algumas iniciativas para facilitar a inserção dos refugiados na sociedade, como o Projeto de Lei 561/2016, assinado pelos deputados Chico Brasileiro, Tercílio Turini e Maria Victoria, que estabelece a isenção das taxas de revalidação dos diplomas de graduação, mestrado e doutorado aos refugiados no Paraná. “O projeto teve voto em separado do deputado Luiz Cláudio Romanelli pela inconstitucionalidade na Comissão de Constituição e Justiça, mas o então deputado Chico Brasileiro apresentou um recurso. Sem esse reconhecimento é muito difícil a integração deles no mercado de trabalho”, comentou.

Simão também mencionou outras barreiras, como o alto custo das traduções juramentadas exigidas, feitas apenas por tradutores da Junta Comercial do Paraná, e a resistência e burocracia dos conselhos de classe para aceitar os profissionais refugiados.

Primeira refugiada a concluir um curso superior no Paraná (e a segunda no Brasil), a arquiteta síria Lúcia Loxca – que se formou em agosto pela UFPR – também defende que haja menos burocracia para o ingresso dos migrantes no mercado de trabalho: “Ninguém foge do seu país porque quer. Fomos obrigados… eu estava no terceiro ano de Arquitetura em Alepo, e caiu uma bomba na minha faculdade”, relatou. “Naquele momento só o Brasil abriu as portas para a gente, eu vim parar aqui sem falar uma palavra de uma língua que nunca tinha ouvido na vida.”

João Guilherme de Mello Simão, que falou dos venezuelanos, e a arquiteta síria Lúcia Loxca.

João Guilherme de Mello Simão, que falou dos venezuelanos, e a arquiteta síria Lúcia Loxca.

Ela concluiu seu curso no Brasil, mas também falou da dificuldade enfrentada pelos profissionais já graduados: “É muito complicado validar o diploma para assinar nossos projetos. As provas são aplicadas em português, e num português muito técnico, a barreira da língua acaba atrapalhando. Se tivéssemos uma prova traduzida, ou pudéssemos usar um dicionário, ou ainda se fossem feitas provas práticas, ajudaria muito”, sugeriu.

Questionada por Nassib Abage se o país tem condições de absorver a mão de obra estrangeira em plena crise, com mais de 13 milhões de brasileiros desempregados, Maria Victoria comentou: “Esse é o grande desafio. Mas sempre há uma brecha de oportunidades para quem é capacitado”. Ela citou algumas ideias para facilitar o acesso dos refugiados e apátridas ao mercado de trabalho brasileiro: a criação de um Projeto de Lei para desburocratizar a revalidação dos diplomas; no caso dos médicos, a discussão com o Ministério da Saúde de um plano nos moldes do Mais Médicos em relação aos cubanos, que facilite o ingresso de profissionais sírios e venezuelanos; um levantamento dos refugiados com formação técnica ou superior e as áreas em que atuam; e conversas com representantes da Associação Comercial do Paraná, da Fecomércio, da Fiep e de secretarias relevantes à causa. “Vamos sentar juntos e procurar dar um encaminhamento adequado para essas pessoas, que têm grande capacidade e estão sendo subutilizadas”, concluiu.